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Posso ler a matéria antes de ser publicada? – Parte 2

No último post do Blog da Comunicare, abordamos uma das questões mais comuns em nossa atuação em Assessoria de Imprensa:

Minha assessoria de imprensa conseguiu uma entrevista ou matéria. Posso ler antes de ser publicada? (clique para ler).

O assunto é interessante e rendeu mais uma colaboração valiosa, agora do Costábile Nicoletta* (abaixo). Se você tiver uma visão diferente ou história para contar, como o Costábile, comente o post ou envie para nós. Este espaço é colaborativo.

O grande problema nessas situações é que a fonte trata o repórter como se fosse um subordinado seu, ao impor a leitura prévia do que se vai escrever. Cabe ao assessor de imprensa orientar seu cliente sobre os males que isso pode causar.

Em todos os periódicos em que trabalhei, nunca permiti que os repórteres sob a minha coordenação enviassem o texto para a “aprovação” do entrevistado. Certa vez, quando eu trabalhava no Estadão, a vice-presidente de comunicação do JP Morgan praticamente exigiu que eu lhe mandasse uma cópia do que eu publicaria depois de entrevistar um dos executivos do banco para uma matéria de fim de semana. Ela argumentou que os jornalistas americanos fazem isso com frequência. Respondi que os jornalistas brasileiros, escaldados pela censura, dificilmente faziam isso e que, se essa fosse uma condição para a entrevista, ela seria cancelada. A matéria foi publicada.

Mas Elio Gaspari, um dos jornalistas mais respeitados do Brasil, não vê problema em submeter o texto ao entrevistado antes, a fim de evitar equívocos. “Até porque”, disse Gaspari numa palestra no Estadão quando ele trabalhou lá, “o repórter só mudará aquilo que julgar que deve alterar, pois o texto continua sendo de autoria do jornalista, não da fonte.” 

*Costábile Nicoletta – Jornalista com 31 anos de profissão, especializado em economia e negócios e passagem em cargos de edição e direção nos jornais Gazeta Mercantil, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Estado de Minas, Meio & Mensagem, Brasil Econômico e revista Carta Capital.

 

Minha assessoria de imprensa conseguiu uma entrevista ou matéria. Posso ler antes de ser publicada?

Essa é uma das perguntas mais recorrentes quando tratamos da relação empresa/jornalista. E a resposta, neste caso, é direta: “não”.

A única exceção é se o jornalista solicitar que você leia caso ele tenha alguma dúvida – isso é extremamente raro, ocorre às vezes em entrevistas sobre temas mais técnicos.

“Mas se sou eu que dou as informações, por que não posso ler? A assessoria de imprensa não deveria conseguir isso?”

Mais uma vez, não. A decisão está na mão do jornalista, que é o ‘dono’ do texto, o responsável por ele – da mesma maneira que as informações contidas ali serão responsabilidade dele e passíveis de correção caso contenham erro (assunto para outro post).

E, ressaltamos, não vale a pena pressionar para que a assessoria de imprensa solicite a leitura, apele à boa-vontade do jornalista.

A possibilidade é enorme de gerar sentimento negativo: “Como assim, ler meu texto? Acha que não entendi ou não sei escrever?”.

Tenha certeza que o relacionamento com esse jornalista e possivelmente seus colegas de redação ficará muito mais difícil dali por diante.

A visão do outro lado – o que diz Angelo Pavini*, do Blog Arena do Pavini:

A melhor resposta que vi sobre esse tema foi a de um repórter que disse para o assessor de imprensa: “se ele não tem certeza do que falou, eu tenho certeza do que ouvi”.

O ponto fundamental é que deve haver uma relação de confiança entre fonte e repórter. E essa confiança implica em riscos de ambas as partes. Repórteres que gravam as entrevistas ajudam a reduzir o risco de erros, e o assessor pode ajudar ao gravar também.

O ponto principal, porém, é que, ao submeter o texto ao entrevistado, o jornalista abre espaço para pedidos de mudanças e interferências em seu trabalho, envolvendo até modificações no que foi dito realmente.

Não é raro o entrevistado despreparado para lidar com a imprensa ou muito espontâneo se arrepender depois do que falou e tentar mudar as declarações mais polêmicas ou estratégicas.

Trata-se ainda de uma questão de respeito ao trabalho o jornalista, ao demonstrar confiança em sua capacidade de interpretar e traduzir as afirmações. 

Da mesma forma, há casos em que o próprio repórter recorre à fonte para verificar se o que ele escreveu está correto, principalmente em assuntos mais técnicos. Mas, em todos os casos, o papel da fonte deve ser o de se colocar à disposição do repórter para esclarecer qualquer dúvida, facilitando o contato ao máximo para evitar possíveis erros.

O que Pavini comentou aponta para outro papel importante da assessoria de imprensa: trabalhar para evitar ruídos na comunicação. Isso pode ser feito anteriormente à entrevista, preparando materiais de apoio, e após a conversa, reconfirmando os números, enviando os dados solicitados por escrito, entre outras atitudes.

Mas, resumindo, não, você não poderá ler/aprovar a matéria, seja ela sobre um assunto de sua especialidade ou mesmo sobre você ou sua empresa.

* Angelo Pavini (www.arenadopavini.com.br) é jornalista formado pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), com 22 anos de experiência na cobertura do mercado financeiro e de assuntos ligados a finanças pessoais. Foi editor do caderno Eu & Investimentos do Valor Econômico, coordenador de cobertura de mercados do canal de TV brasileiro da Bloomberg, editor do serviço de notícias em tempo real da agência Reuters, coordenador em São Paulo do serviço de notícias financeiras em tempo real da Agência O Globo e editor de Finanças e do caderno de serviços financeiros Suas Contas do jornal O Estado de S.Paulo.